A Transformação do Mapinguari - Lendas e Causos pag. 001

“Meu pai, que fora índio bravo, nas terras firmes da região do rio Madeira, Explicou que, quando certos caboclos ficam muito velhos e não podem mais andar, o Pajé faz uma reunião com a aldeia, e, com muita fumaça, fazem danças e cantorias.


Pegam aquele índio velho, colocam num canto da maloca e vão dando-lhe comida, só na base do vegetal. Não podem dar carne, para ele não ficar muito bravo. Quando fica com fome, começa a dar gritos meio baixos, depois vai aumentando. É quando os índios se juntam e fazem uma casinha onde colocam o futuro Mapinguari, que já incomoda com o grito feio, já parecido com o que ele vai dar lá no mato quando estiver andando.


O couro começa a engrossar, até ficar mais duro que casco de tartaruga, que nem bala rompe. Os índios continuam levando cachos verdes de banana, mandioca, cará e milho e tudo ele devora. O Pajé faz visita e reza muito perto dele, que continua deitado e se arrasta para alcançar a comida que lhe levam. A camada grossa que cobre o animal, vai cobrindo tudo, tampando o rosto, deixando apenas um olho que cresce junto com o corpo. Os pés perdem os dedos, ficando de forma arredondada como pata de elefante. Vai se transformando.


A boca aumenta e os dentes crescem, principalmente as presas. Fica muito feio, perde a fala e dá apenas uns gritos compassados, que mais parecem um uivo de cão. Escuta-se a grande distância dentro da noite, assombra qualquer pessoa. Por onde passa, deixa um cheiro horrível que parece alho.


E, durante a semana de lua cheia, ao amanhecer, inicia-se a grande viagem pela floresta. Coloca-se o Mapinguari dentro do cesto e são escolhidos pelo chefe da aldeia os caboclos mais fortes, para o transporte do bicho. Depois de andarem dias dentro da mata, em local escolhido pelo Pajé, fazem um limpo na mata, descarregam a comida e deixam o Mapinguari à mercê de sua sorte.


Geralmente o Mapinguari consegue sobreviver, e sai a vagar pela selva, dando gritos horríveis e devorando tudo o que encontra. [...] Normalmente, ele vai assombrar outra aldeia. Ai essa tem que fugir. O Mapinguari pega um homem, coloca debaixo de um braço com a maior facilidade e vai tirando os pedaços com a outra mão e comendo, dando gritos que estremecem as montanhas”.


Essa história foi contada por um garimpeiro de diamantes do estado de Rondônia chamado Cupertino, em 1954, e foi documentada no livro “Lendas e Fatos da Amazônia”, de Abel Neves.


Imagem: Ikarow

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